Já era fim de tarde quando Alice chegou em casa ao final de mais um dia cansativo. Seus pés doíam dentro dos tênis, queria poder arrancá-los e jogá-los para bem longe. Acordou às oito da manhã e, desde estão, esteve com eles apertando e machucando durante as horas que passou entregando currículos pela cidade. Era meio frustrante constatar como é difícil concederem uma oportunidade a um recém formado. Cursou administração e foi uma das alunas mais aplicadas durante todo o curso, no entanto, suas boas notas e dedicação não pagavam as contas atrasadas que se acumulavam sobre a mesa de centro. Enquanto não conseguia um emprego na sua área, trabalhou em uma loja de roupas infantis que declarou falência há alguns meses. Saiu com uma mão na frente e a outra atrás, sendo obrigada a reivindicar seus direitos por tempo de trabalho, na justiça. Ciente do longo tempo que esses processos levavam para terem um desfecho, começou a fazer alguns extras como professora de inglês. Não pagava todas as suas contas, mas garantia que sua dispensa estivesse cheia no final de cada mês.
Tomou um banho morno a fim de relaxar os músculos e livrar-se da tensão, e vestiu-se com roupas largas e confortáveis para receber Murilo: seu melhor amigo desde o ensino fundamental. Murilo é gay assumido e exala purpurina por todas as células de seu corpo. Ao contrário de Alice, que, se não contar, ninguém desconfia que já chorou por mulheres no banho.
— Cheguei para animar a tua noite, pretinha! — Disse Murilo, cruzando a porta com uma caixa de pizza portuguesa – a preferida da amiga.
Alice é filha de mãe branca com pai negro de pele escura. Sente-se meio perdida quanto à sua própria cor, visto que alguns dizem que ela é “escura demais” para ser branca e “clara demais” para ser preta. Já foi chamada de parda, caramelo. No entanto, negra de pele clara era o que melhor a representava.
— Ah, meu amigo… só você para me arrancar algum sorriso nesses últimos tempos. — Suspirou, pouco antes de fechar a porta.
— Amiga, já disse que você está perdendo tempo! Com essa beleza que você tem? Ihhh, já teria agarrado alguém de dinheiro faz tempo, meu amor!
Murilo vivia uma relação bastante conveniente com um homem vinte anos mais velho que conheceu em um cruzeiro para Argentina no final de 2023. Por se tratar de um empresário que tem muita coisa em jogo e não pode se assumir, Murilo o satisfaz de maneira carnal, e em troca recebe viagens, dinheiro e artigos de luxo. Apesar de ser praticamente bancado pelo homem, não abria mão dos estudos, pois visava um futuro promissor onde pudesse caminhar com as próprias pernas. Foi expulso de casa aos dezessete quando assumiu que gostava de garotos. A falta de apoio tornou seus caminhos mais difíceis, o fazendo se virar como pôde para sobreviver até aqui.
Buscaram algumas latas de cerveja na cozinha e se sentaram no sofá com a caixa de pizza disputando espaço entre as contas, sobre a mesa.
— Você fala cada coisa… — sacudiu a cabeça negativamente, como se o comentário do amigo fosse um absurdo no qual ela jamais se meteria. — Olha lá se eu tenho cara de que vou sair pelas ruas de Ipanema à procura de uma Helena de Manuel Carlos para me bancar? — Riu do quão surreal parecia o pensamento.
— E quem disse que você precisa sair por aí? Hello! — Estalou os dedos. — Vivemos na era de internet, basta você pesquisar alguns sites ou baixar um aplicativo para encontrar muitas Helenas dispostas a te bancarem.
— Em troca de sexo? Sem chance.
— Os homens sempre querem sexo, sim. Mas talvez as mulheres só queiram… companhia? Ah, não sei, testa pra ver!
— Aham… uma pessoa vai aceitar pagar minha pilha de contas em troca de companhia? Em que mundo você vive, Murilo? — Revirou os olhos pouco antes de apanhar e levar uma fatia de pizza à boca.
— Tem maluco para tudo, vai por mim.
— Vamos supor que em uma realidade alternativa isso fosse verdade.
— Ualá! Ela já está fazendo suposições… — implicou, recebendo uma almofada na cara.
—Posso continuar? Ou pretende ficar aí me zoando? — Murilo gesticulou um zíper nos lábios, a deixando prosseguir. — Eu nem saberia como me portar, você entende? Seria uma relação estranha demais.
— Mais ou menos, tudo seria acordado antes. As regras seriam impostas pelos dois lados.
— Regras? — Indagou. — Não entendo como algo pode funcionar assim. Isso está mais para uma relação entre dois robôs programados.
— Ah, claro… o melhor é a suas contas continuarem se acumulando e os aluguéis atrasando até você ser expulsa daqui.
— Pode parar? Não gosto quando você é irônico. — Alice abriu mais uma lata de cerveja e começou a toma-la em grandes goladas. Estava estressada pelo dia caótico e por não conseguir encontrar uma solução para os problemas.
— Desculpa, amiga, mas sua situação está complicada.
— E ainda pode piorar se eu tiver que voltar a morar na casa dos meus pais. Você lembra o inferno que era? Argh! — Esboçou uma careta. — Não gosto nem de pensar! Prefiro me jogar da ponte Rio-Niterói!
Murilo não conteve a gargalhada, gostava do lado cômico da amiga, que mesmo em meio às desgraças, sabia fazer piada de si mesma e das situações.
— Pular da ponte, voltar a morar com seus pais ou ligar aquele notebook… — apontou para o aparelho sobre o hack— e tentar começar uma relação promissora?
— Por favor, Murilo, não me empurra que eu já estou na beira! — Riram. —Vamos esquecer as contas, meus pais e mulheres ricas, ok?
— Mulheres ricas e mais velhas! — O amigo ressaltou. —Não é você que adora, Ali? Só benefícios! — Não se esforçou para segurar o riso ao ver as expressões que a amiga esboçava. Sentia que Alice voaria em seu pescoço a qualquer momento.
— A última por quem me apaixonei me fez falar sobre ela durante um ano de terapia! Não, estou muito bem assim, meu coração e mente agradecem.
O assunto foi deixado de lado quando iniciaram uma partida de xadrez; o jogo favorito de Alice. A jovem aprendeu a dominá-lo com Genaro, seu avô, ainda na infância. Alice conseguia prever os movimentos dos adversários e, assim, se adiantar nas próprias jogadas.
— Que inferno, é impossível te vencer! — Murilo bagunçou todas as peças e levantou-se bufando. —Não, não é possível, deve ter alguma falcatrua aqui debaixo. — Indignado, deu meia volta e olhou embaixo da plataforma do tabuleiro.
— Idiota! Aceita que sou a melhor! — Riu baixinho.
— Aceito é ir tomar um chopp em algum pub próximo, o que acha? Essa cerveja está quente. Podemos chamar a Vivi, é por minha conta!
Não se sentia confortável em ter alguém pagando as coisas, mesmo que esse alguém fosse seu melhor amigo. No entanto, hoje estava tão irritada com a vida, precisando distrair os pensamentos, que apenas concordou. Encontrar com Vivi e pôr a conversa em dia sempre lhe fazia bem. Ela e Viviane se conheceram no curso de inglês há cerca de seis anos.
— Estou pronta— anunciou minutos mais tarde, após vestir um jeans que valorizava suas coxas, e uma blusa preta de alcinha.
— Belíssima! — Murilo adorava elevar a autoestima de suas amigas.
Alice Mendes é, de fato, belíssima. Seus cabelos ondulados, longos e volumosos chamam a atenção, assim como a sua cor, principalmente após um final de semana de praia. O sorriso é doce e o olhar involuntariamente atraente sempre que se fixa a algo de seu interesse. É observadora, discreta, com ambições de mulher e alguns sonhos de menina. Sempre se achou diferente das demais meninas, mas se começou a se entender como lésbica aos quatorze anos de idade quando uma professora de literatura não saía de seus pensamentos. A professora, claro, nunca soube de sua paixão platônica, mas a partir de ali, a jovem voltou o olhar para os próprios sentimentos e observou como sua mente e corpo reagiam com interessante ao sexo feminino. Seu primeiro beijo em uma menina foi aos quinze, em uma festa junina da escola, com a sua melhor amiga da época.
Encontraram Viviane na calçada do pub e logo se acomodaram confortavelmente naqueles sofás booth muito encontrados em lanchonetes. Enquanto os pedidos não chegavam, colocavam a conversa em dia:
— Está na mesa! — Exclamou Viviane, jogando algo sobre a superfície. — Agora a mamãe está habilitada!
— Ah, meu Deus, mentira! — Dizia Alice, com alegria, tomando a carteira de habilitação em suas mãos.
— Parabéns, Vivi! — Murilo sorria de orelha a orelha. A felicidade de suas amigas era como se fosse a sua. — Já podemos temer pelas nossas vidas? — Implicou.
— Ha-ha-ha, que engraçado você. — Viviane entortou a cara.
— Estou muito feliz por você! Agora somos os três habilitados! — Alice parabenizou.
— E sem carro! — O homem complementou.
— Não era você que tinha uma espécie de sugar daddy, Murilo? Está na hora de providenciar um carro para levar suas amigas para sair.
— Tinha não, tenho! — Disse alto e em bom tom. — Mas não é para tanto, né, meninas? Recebo apenas agradinhos financeiros.
Três canecas de chopp gelado foram trazidas à mesa e depositadas ao centro. Agradeceram ao garçom e deram continuidade ao assunto.
— Você acredita que o Murilo sugeriu que eu arrumasse uma sugar mommy para pagar minhas contas enquanto eu não consigo um emprego? — Comentou em meio a um meneio negativo de cabeça, como se a sugestão soasse absurda.
— E por que não? Até onde sei, uniria o útil ao agradável!
— Até você, Vivi?
— Ué, não é a senhorita que se amarra em uma mulher mais velha? Não vejo por que não tentar.
— E só por isso eu deveria me enfiar em uma relação de benefícios?
— É tudo acordado, Alice. — Murilo se manifestou. — Não é como se você estivesse com alguém por interesse, fingindo estar apaixonada, como muitos fazem. Isso eu também acho errado! Aqui estamos falando de algo muito diferente, onde os dois lados sabem onde estão se metendo.
— Com licença, de quem é o hamburguer? — Perguntou o garçom, retornando com os lanches.
— É meu! — Vivi se manifestou.
— A porção de batatas é minha. — Foi a vez de Murilo.
Sobrou uma pequena tábua de frios que o funcionário depositou na frente de Alice.
— Gente, eu não conseguiria ter que transar com uma figura desconhecida.
— Ué, vocês podem desenvolver um vínculo antes, vai que rola uma química? Nada impede.
— Está vendo, Ali? Até a Vivi acha que não há empecilhos! — O rapaz levou a bebida aos lábios e espionou Alice por cima da caneca.
— Estou tão financeiramente na merda, que se vocês me empurrarem um pouco mais, eu me jogo nessa. Então, parem, por favor.
Os amigos tentaram não tocar no assunto no decorrer das horas. Viviane contava com empolgação sobre os planos de financiar um automóvel seminovo, enquanto Murilo falava sobre uma viagem de três dias que faria no próximo feriado com o homem o qual se relacionava. Quando as falas começaram a embolar e a mesa estava preenchida por mais canecas vazias do que poderiam contar, decidiram que era o momento de tomar um táxi e partirem.
— Você viu a olhada que aquela mulher te deu, Ali? — Perguntou Viviane. Os três estavam parados na calçada à espera de um carro.
— Que mulher? Não viaja.
— A que acabou de passar por nós! Posso estar meio tonta, mas consigo reconhecer uma expressão de interesse!
— A Alice, infelizmente, não confia no próprio potencial atrativo — lamentou o amigo. —Uma moça tão linda e inteligente como ela, se achando feia e desinteressante, ai ai…
A jovem possuía inseguranças que iam muito além de sua aparência física. Lutava frequentemente contra sentimentos de inferioridade e falta de merecimento. No fundo, era ciente de seu valor, mas o via se perder com facilidade nos tropeços do dia-a-dia. Durante as consultas terapêuticas que fez há alguns anos, descobriu que possui uma desordem psicológica que interfere na sua autopercepção, principalmente, em relação às conquistas. Tem grande resistência em reconhecer que as suas realizações aconteceram por conta dos seus esforços. No seu caso, essa desordem deu-se início na infância, durante uma criação à base de pais que nunca souberam reconhecer suas conquistas.
Alice sempre foi uma pessoa esforçada e não mede esforços para caminhar rumo aos ideais que tem para si mesma. Almeja mudar de vida, viajar países, vivenciar novas experiências e levar na bagagem da vida distintos conhecimentos culturais. Cada passo que dá é sempre pensando em se tornar a mulher dos próprios sonhos.
Chegaram ao apartamento da jovem por volta das 23:30. No trajeto até lá, ficou decidido que os amigos passariam a noite e iriam embora pela manhã. Após tomarem um banho frio, na tentativa de resgatarem o estado de sobriedade, sentaram no sofá enquanto Alice usava o computador para verificar a caixa de e-mails na esperança de alguma empresa ter selecionado os currículos que enviou online naquele mês.
Sem resposta, tomada pela frustração e parcialmente bêbada, teve o pensamento intrusivo de querer visitar o site de relacionamento sugar baby mencionado por Murilo durante toda a tarde e noite. Animados, os amigos puxaram duas cadeiras ao lado de Alice e se juntaram em frente a tela do computador. Sem compromisso, a jovem acessou a página e perguntou ao rapaz como o site funcionava no quesito proteger a identidade. Afinal, não ia querer sua cara estampada em um site de relacionamento como esse –segundo os próprios pensamentos.
— Não se preocupe, não há a necessidade de por sua foto no perfil, e você pode criar qualquer nome de usuário. Muitos empresários e pessoas influentes estão por trás dessas contas, para eles é primordial ter a identidade preservada.
— E como vou saber se estou realmente conversando com uma mulher, por exemplo?
— Você vai enviar foto da documentação e precisará comprovar a identidade através do reconhecimento facial ao baixar o aplicativo no celular. Mas não se preocupe, seus dados pessoais não são divulgados. Essa política é apenas para garantir a segurança dos usuários. Os participantes podem trocar fotos por mensagem direta no chat do aplicativo, mas já vou avisando que é pouco comum de acontecer. Com todos os daddys que conversei, apenas um me mandou foto antes do nosso encontro. Eles têm medo que possamos printar e expor na internet, é compreensível.
— Entendi… — se mostrou reflexiva. — Provavelmente vou me arrepender disso amanhã, mas… vamos lá!
Acessou o site e criou um cadastro com seu nome completo e demais dados pessoais. Feito isso, baixou a aplicação no celular e concluiu a etapa de comprovar sua identidade; que consistia em enviar uma imagem do RG e, em seguida, capturar fotos de sua face em diferentes ângulos.
— Agora você escolhe seu nome de usuário, escreve algo atrativo na sua bio, põe uma imagem de perfil… tudo como se fosse qualquer rede social.
— Não quero ter que mentir meu nome, mas também não quero me expor. Eu sei que existem milhares de Alices por aí, mas mesmo assim seria estranho. — Tamborilava os dedos no teclado enquanto pensava em um nome de usuário criativo. —Já sei! Vou pôr a palavra “just” mais as sílabas do meu nome de trás para frente!
Para a sua sorte, o usuário “@justcelia” estava disponível. O segundo passo foi criar uma bio e anexar uma foto ao perfil. Vasculhou por alguns minutos na galeria de imagens do computador até encontrar uma de baixa iluminação, onde estava posicionada de costas, tirada por Viviane em seu aniversário do ano passado. Na fotografia em questão usava um coque frouxo no alto da cabeça, com alguns fios ondulados caindo pelas laterais.
— O que acharam? Dá para saber que sou eu?
— Relaxa, não mesmo! — Disse Viviane.
—O que eu faço agora?
— Agora você vai filtrar suas preferências, tais como: gênero, faixa etária e região.
— Ok.
Finalizou todo o passo a passo, posteriormente, uma lista de perfis femininos apareceu na tela. Rolava o scroll do mouse à medida que abria um por um dos perfis e lia a bio em voz alta, junto aos amigos. Murilo a orientou a clicar no ícone de coração cada vez que um perfil lhe chamasse a atenção, e explicou que se o usuário devolvesse o coração, significava que rolou um interesse mútuo.
Após longos minutos analisando os perfis daquelas mulheres, sem saber ao certo o que fazia ali, um lhe despertou a atenção: @b.atriz. Como a maioria, não havia foto, mas na bio estava descrito que o propósito da usuária com aquele relacionamento era encontrar alguém que pudesse lhe oferecer uma boa companhia. Na descrição também dizia que a tal @b.atriz falava quatro idiomas, além do português, e que viajar pelo mundo provando as culinárias locais era um de seus passatempos favoritos. Frisou que gostaria de uma relação descomplicada, sem exposição, com o intuito de tirá-la da rotina. O tempo de duração dependeria da conexão estabelecida e do alinhamento das expectativas. Deixou claro que era uma mulher bem sucedida e, por essa razão, iria garantir estabilidade financeira à sua baby.
De maneira despretensiosa, Alice favoritou esse perfil e mais outros dois, e antes de desligar o computador, decidiu ler a descrição da própria bio para se certificar que estava de seu agrado:
“Desejo conhecer o melhor do mundo, mas sem deixar de enxergar a vida de maneira simples. Quero alcançar lugares não tocados, mas com os pés sempre firmes nas minhas raízes. Tenho objetivos bem estabelecidos, e me apaixonar não é um deles. Mas estou no ápice da minha juventude, então espere viver uma relação enérgica e empolgante.”
— Satisfeitos?!— Perguntou ao virar a cabeça em direção aos amigos.
— Satisfeitíssima!
— E empolgados!
— Isso não dará em nada, gente, mas agora vocês me deixarão viver em paz, então já estou no lucro!
Alice soltou uma baixa risada e levantou-se da cadeira cambaleando de sono e cansaço. Os pés ainda estavam doloridos dos tênis apertados de mais cedo, e a cabeça girava pelo efeito das canecas de chopp.
— Boa noite, Ali! Nós também já vamos emburacar na cama e dormir. — Viviane se despediu.
— Boa noite, gente.
***
Alice amanheceu com uma incômoda dor de cabeça justificada pelo consumo de álcool na noite anterior. Se levantou sonolenta e foi ao banheiro para jogar uma água gelada na cara e escovar os dentes em busca de um pouco de bem estar. As ondas estavam amassadas e armados, então enrolou o cabelo em um coque alto meio bagunçado, mas que ficara até charmoso com alguns fios caindo pela lateral do rosto.
— Bom dia, Vivi. Cadê o Murilo?
— Ah, ele já foi, tinha alguns compromissos para resolver. Dormiu bem?
— Feito uma pedra! — Riram. — E você?
— Também.
Alice juntou-se à amiga para a refeição, havia uma garrafa de café recém passado e uma caixa de suco de laranja sobre a mesa. Viviane havia se adiantado e comprado pães frescos na padaria da esquina. Alice ofereceu ovos mexidos e se sentou para comerem.
— Quais os planos para hoje?
— Hum… acho que só repassar a matéria da facul, tenho prova hoje à noite, e você?
— Enviar mais currículos online e sair para entregar alguns outros pessoalmente.
— E a sugar mommy? Desistiu antes mesmo de começar?
— Putz! — Levou a mão à testa. — Esqueci COMPLETAMENTE, preciso excluir a minha conta. — Tateou a superfície da mesa buscando o celular.
— Excluir? Nem pensar! Me dá isso aqui!
Viviane se inclinou e esticou o braço para tentar arrancar o aparelho das mãos da amiga, que reagia se esquivando de suas investidas.
— Claro que vou! Criei esse perfil por livre e espontânea pressão! Ah, e uma boa dose de álcool!
Alice até tentou, mas na primeira distração Viviane arrancou o celular e começou a fuçar no aplicativo.
— Você já viu isso? — Disse com empolgação, virando a tela para que Alice pudesse visualizar. — Recebeu uma notificação de que alguém deixou um coração no seu perfil.
— Sério? — Franziu o cenho e estreitou os olhos para ler as letras pequenas na distância em que estava. — Não pode ser possível… — tomou o aparelho em mão, esquecendo até mesmo do café da manhã. — Foi aquela @B.atriz — comentou. — O perfil que mais gostei, por incrível que pareça.
— Olha aí, seria um sinal do destino?
— Ah, não começa, sabe que não acredito nessas coisas. Ela deve ter favoritado dezenas de perfis.
— Hum… e por que não manda uma mensagem para saber as intenções?
— Eu?
— Não, Alice. A Madonna! Claro que é você!
— E o que eu diria?
— Ah, sei lá, qualquer coisa. — Deu de ombros.
— Não posso dizer qualquer coisa e parecer desinteressante justo no primeiro contato.
— Ué, não era você que minutos atrás queria excluir o aplicativo? — A olhou de cima abaixo, segurando o riso. — Vai, manda uma mensagem!
— Ai, não sei, melhor esperar para ter certeza se eu realmente quero isso. Não devo me deixar levar.
… E de fato Alice esperou, foram dias olhando para a janela de mensagens particulares, sem saber ao certo o que dizer e se deveria entrar naquela vida. Quase uma semana depois, com as contas se acumulando e um aviso de despejo passado embaixo da porta, resolveu ligar o foda-se e cometer o ato mais louco de sua vida. Uma mensagem foi enviada à usuária @B.atriz, e a resposta chegou ao amanhecer. Conversaram por alguns dias, em busca de se conhecerem e alinharem suas expectativas sobre a futura relação. Em uma semana, tudo já estava devidamente acordado por ambas as partes, só precisariam marcar uma data para o encontro.
— Ainda não acredito que tudo isso está acontecendo! — Alice estava de visita na casa de Viviane, conversavam no quarto, sentadas contra grandes almofadas, ouvindo música, enquanto os pais da moça assistiam novela na televisão da sala. — Mas agora que comecei, vou até o fim!
— Quando poderão se encontrar? — Viviane não escondia o interesse por esse momento.
— Se dependesse dela, já teríamos. Mas eu menti dizendo que estou viajando.
— Ué, por que fez isso? — A encarou com olhar de represália. — Pensei que quisesse resolver os seus problemas o quanto antes! — A jovem fez sinal de dinheiro ao esfregar os dedos.
— Ah, eu preciso me preparar, entende? Já que vou embarcar nessa, então que seja para valer, disposta a fazer dar certo.
— Hum, mas o que poderia dar errado?
— Não sei… ela aparenta ser uma mulher de muita classe, dotada de conhecimento, com uma bagagem cultural enorme. E eu? Nem ao menos sei a ordem correta de usar os talheres à mesa. Vai pensar que sou uma selvagem.
Viviane soltou uma risada.
— Boba! Eu também não sei essas regras de etiqueta, mas você pode aprender!
— Eu quero muito, porque tenho certeza que frequentaremos restaurantes de alto padrão. Seria errado querer impressioná-la?
— Não mesmo, no seu lugar eu também iria querer fazer algum preparo.
— Pois é.— Suspirou. — Sinto que eu precisava de uma mentoria, principalmente para aprender a me vestir melhor de acordo com as ocasiões.
— Mas eu adoro as suas roupas, o seu estilo! — Comentou genuinamente. — Não vejo nada de errado, inclusive, pegaria mais da metade do seu guarda roupa emprestado.
— Ah, eu também gosto, mas me acho muito básica, estou sempre casual. Queria me vestir mais adulta, elegante e transmitir seriedade. Para estar ao lado de uma mulher do porte dela, vou precisar.
— Cara, então por que você não contrata uma mentoria? Eu sigo uma mulher nas redes sociais que é estrategista de imagem e entrega dicas valiosíssimas! Ela atua em várias áreas, incluindo regras de etiqueta à mesa.
— O problema é que nesse momento eu não tenho onde cair morta. — Alice respirou fundo, sentia-se frustrada, de pés e mãos atados.
— Vamos fazer o seguinte… assiste alguns vídeos dessa mulher que estou mencionando, ela se chama Mônica Linhares. Se realmente for isso o que você quer e precisa, eu te empresto o valor necessário. Tenho um valor legal na poupança, dos estágios da faculdade, e como ainda moro com os meus pais… não vou precisar mexer nessa grana tão cedo.
— Oh não, que isso, eu não posso aceitar, Vivi. Esse tipo de mentoria costuma ser bem cara, dependendo do profissional.
— Enxergue como um investimento em si mesma, e não é dado, é emprestado, isso torna mais confortável, não? Se essa sugar se amarrar mesmo em você, não dou três meses para reaver esse dinheiro. Aceita, vai? Por favor, por favor, por favor?
Pedia com as mãos unidas como se estivesse orando. Viviane estava torcendo para que a amiga aceitasse, pois desejava vê-la se arriscando e jogando-se na vida.
—Tá, tá, ok, eu aceito!
— Yeeesss!
Na noite daquele mesmo dia, ficou horas a fio assistindo aos vídeos da tal Mônica Linhares. Gostou de como ela se expressava e parecia segura falando sobre o conteúdo de seu trabalho. Resolveu clicar no link que estava na bio do perfil e encaminhou um e-mail a fim de marcar uma visita sem compromisso. Seu contato foi respondido pela secretária da mulher durante a tarde do dia seguinte, contendo informações de data e horários disponíveis. Para a sua má sorte, Mônica só possuía agenda para daqui um mês e meio. Frustrada, desligou o notebook e voltou ao celular. Assistiu alguns conteúdos de valor de outros profissionais, mas ninguém transmitiu a mesma confiança e clareza nas palavras, como Mônica.
O relógio no visor de seu celular marcava 16:45, isso significava que possuía apenas quinze minutos para se organizar e iniciar a aula de inglês prevista para as cinco. Seu aluno de hoje era um jovem de dezessete anos que sofria de ansiedade social. Por essa razão, os pais acharam que as aulas particulares remotas seriam a melhor opção. Alice também fazia serviços extras como tradutora de livros, mas a demanda era bem baixa.
Por volta das 18:12, quando finalizava a aula e se despedia, recebeu uma notificação de um novo e-mail. O abriu ainda pelo notebook e conforme seus olhos caíam sobre aquelas palavras, um sorriso foi nascendo nos lábios. Se tratava de uma mensagem da secretária da estrategista de imagem comunicando uma desistência em cima da hora. Se apressou em responder e aceitou a vaga para uma visita amanhã, às cinco da tarde. No corpo do e-mail também constava o endereço completo do estúdio e um ponto de referência.
A expectativa do que estava por vir trouxe uma gostosa sensação de frio na barriga. Há tempos não se sentia bem com a própria imagem, como se as peças em seu guarda roupa já não condissessem com quem ela é, ou, gostaria de se tornar. No entanto, essa foi uma questão que sempre ficou para depois, principalmente durante o período de estágio e faculdade, onde toda sua energia física e mental era completamente sugada.
Se deitou por volta das onze e buscou um filme interessante para assistir em algum streaming enquanto o sono não chegava. “Imperdoável” foi a sua escolha. Finalizou o filme reflexiva, pensando no quão difícil é alguém tentar se reconstruir em uma sociedade onde o perdão é totalmente inflexível.
Desligou a televisão e verificou se havia mensagem de Beatriz no aplicativo de relacionamentos. Respondeu o “boa noite” e largou o aparelho de lado para tentar dormir. Seus pensamentos estavam a mil; temerosa e, ao mesmo tempo, ansiosa para o novo que estava por vir.
***
Amanheceu dotada de energia e animação, pôs uma playlist para tocar e deu uma geral no apartamento; limpando e organizando todos os cômodos que pediam por um choque de ordem há dias. Almoçou por volta de uma hora e se trocou para atender presencialmente um aluno de doze anos que fazia reforço de inglês uma vez na semana.
Ao término da aula, correu para casa a fim de tomar um banho e se trocar para a visita que faria ao estúdio. Não pensou muito em qual roupa usar, pois desejava uma análise genuína, crua, sem camuflar-se. Um jeans com camiseta e tênis branco acabou sendo o visual escolhido.
Tomou o metrô às três e meia. De seu bairro até o local levava em torno de cinquenta minutos a uma hora, então calculou uma sobra de tempo de trinta minutos para que pudesse caminhar com calma da estação até o destino.
Chegou faltando quinze minutos, olhou para cima e avistou a fachada de um edifício espelhado. Cumprimentou o porteiro que estava na recepção e parecia olhar algumas câmeras, e avisou que precisava chegar ao estúdio de Mônica Linhares.
— Sétimo andar, sala setecentos e dois. Saindo do elevador, basta virar à direita.
— Obrigada!
Alice chegou ao andar e corredor de destino e procurou com o olhar até avistar a porta com a numeração mencionada pelo homem. Na verdade, antes de se atentar ao número, o que lhe despertou a atenção foi a placa de vidro contendo o nome da profissional e a logo com as siglas do nome e sobrenome.
Apertou o botão externo e aguardou até ser atendida por uma moça simpática que a recepcionou muito bem e confirmou a visita em uma planilha no computador. Feito isso, a mulher comunicou à chefe sobre sua chegada e, alguns minutos depois, a própria Mônica apareceu para recebê-la.
— Boa tarde! Alice?
— Oi, boa tarde! — Levantou-se. — Sim, sou eu.
Retribuiu ao sorriso educado e estendeu a mão para cumprimentá-la. O aperto recebido foi firme, mas não muito forte, transmitindo confiança desde o primeiro contato. A postura ereta e o olhar firme que vinha dos olhos castanhos escuros também contribuiu para que Alice reafirmasse a primeira impressão.
— Poderia me acompanhar?
A jovem se pôs ao lado de Mônica e a seguiu com passos lentos através de um extenso corredor que dava acesso ao estúdio propriamente dito. O ambiente se localizava em uma área um pouco afastada da recepção para que não recebesse ruídos externos. Era climatizado, tamanho mediano e propriamente equipado com a aparelhagem que Mônica necessitava, tal como: tripé, máquina fotográfica para capturar a imagem de antes e depois de suas clientes, projetor para apresentar o material de seus slides, espelho, arara com peças de roupas e uma mesa de madeira que servia para as aulas de mesa posta ou etiquetas à mesa. Havia, também, uma mesa executiva com um notebook e itens de papelaria, um sofá para recepcionar as clientes, poltrona e mesa de centro com revistas sobre moda. O ambiente, de estética minimalista, era aconchegante e de iluminação não muito forte para não provocar cansaço visual. No ar, havia um aroma que rapidamente foi sentido pelo olfato de Alice, no entanto, não identificado. Se tratava de um aromatizador de tomada que Mônica gostava de fazer uso para trazer ao estúdio uma sensação de lar.
Se acomodou no sofá de dois lugares e observou Mônica se sentar de pernas cruzadas na poltrona. A profissional usava uma calça preta de alfaiataria, camisa ensacada – de mesma coloração – e uma gargantilha dourada contrastando com a escuridão das peças de roupa. Proporcionando elegância ao visual, havia um scarpin nude em seus pés. Enquanto a observava tão bem vestida, se praguejava mentalmente por ter colocado a primeira roupa que apareceu na sua frente.
—Vamos lá, Alice. Primeiro, permita me apresentar e falar um pouco sobre o que faço por aqui. — Sua voz era firme, límpida e sem falhas. Me chamo Mônica, tenho formação internacional em mesa posta, etiqueta e consultoria de imagem. Atuo na área física há quatorze anos, e jurídica há seis. Confesso que o meu maior foco e satisfação é trabalhar com mulheres e transformar suas vidas pessoais e profissionais através de uma boa construção de imagem.
Alice se atentava a cada palavra, ao mesmo tempo que observava como aquela mulher possuía polidez em seus gestos e falas. Era difícil não admirar tanta elegância e segurança no que dizia.
—Para iniciarmos um projeto, eu preciso entender quais são as suas necessidades e por qual motivo buscou o meu serviço.
“Para conquistar uma ricaça na internet” — pensou, contendo a vontade de rir de si mesma. — Então… — arrumou-se no sofá. — Eu quero trabalhar a minha imagem, pois sinto que eu não consigo transmitir o que realmente gostaria. Quero passar mais seriedade e me desvincular do jeito moleca que respinga da minha adolescência. Estou com dificuldade de conseguir emprego, então eu acredito que isso me ajudaria até mesmo na área profissional. — Apesar de a iniciativa para estar ali ter partido de outro interesse, Alice foi verdadeira em todo o seu discurso com Mônica. De fato, sentia que precisava melhorar a sua imagem, e acreditava fielmente que a mudança também lhe abriria oportunidades profissionais. — Eu também gostaria de aprender algumas regras de etiqueta, o básico — frisou. — Algo como me comportar à mesa e conhecer a ordem e função de cada utensílio.
— O fato de estar preocupada com a sua imagem é um bom ponto de partida. — Sorriu discretamente. — Tenho alguns planos e propostas que você pode acessar através do meu site, mas eu também enviarei a você por e-mail. Mas acredito que possamos criar um projeto individual, que atenda minuciosamente as suas necessidades. Dessa maneira, posso oferecer a garantia de que sua experiência comigo será inteiramente satisfatória.
— Pelo pouco que conheci do seu trabalho, tenho certeza que será — comentou com suavidade na voz e um sorriso nos lábios. — Eu gostaria, sim, de uma mentoria personalizada.
— Certo, estou com a sua ficha aberta ali no meu notebook, assim que você sair daqui te enviarei um formulário por e-mail, com a intenção de coletar o maior número de informações sobre o que deseja.
— Ah, ok, vou estar esperando ansiosamente. Mal posso esperar para começarmos! Em média, quanto tempo dura essa mentoria?
— Vai depender da complexidade do seu caso, mas não se preocupe, o valor acordado cumpre o tempo necessário. Não chegaremos ao fim enquanto você não sentir que alcançou o objetivo.
Em toda a sua vida, Alice nunca se sentiu tão confiante de dar o primeiro passo como agora, ouvindo o discurso de Mônica Linhares. A segurança e confiança transmitida ia além das palavras, toda a postura daquela mulher era extremamente persuasiva. Em meio aos pensamentos sobre o que estaria para iniciar, Alice ainda tentava reconhecer o aroma daquela sala.
— Ah sim, pra mim está perfeito! Terminamos por aqui?
— Por hoje, sim. Aceita um café, um suco, uma água…?
— Oh não, mas agradeço a gentileza — Levantou-se um pouco sem jeito, sem saber aonde enfiar as mãos, acabou metendo-as dentro do bolso do jeans.
— Vou acompanhá-la até a saída para que volte em breve.
Mônica não perdia a simpatia e o sorriso educado estampado no rosto.
— Pode ter certeza que voltarei — dizia enquanto andavam pelo corredor. Mônica fez questão de acompanhá-la até a pequena recepção, causando em Alice uma positiva primeira impressão.
A jovem estava radiante quando deixou o edifício, se viu ansiosa para começar o projeto com aquela mulher o mais rápido possível. Durante o trajeto no metrô trocava mensagens com Viviane e Murilo sobre a visita ao estúdio. Também aproveitou para responder Beatriz no aplicativo de relacionamentos. Ela e a mais velha raramente conseguiam manter uma conversa simultânea, pois Beatriz trabalhava demais e quase não conseguia estar online. A mulher sempre ressaltava a necessidade de se verem pessoalmente, mas Alice ainda ganhava tempo com a história sobre a suposta viagem.
Ao chegar em casa, logo tratou de conferir e preencher o questionário de Mônica Linhares. A resposta veio horas mais tarde, com os valores do projeto e a disponibilidade de agenda. Olhou para todos aqueles números e julgou o valor bastante alto, mas não era o tipo de pessoa que gostava de precificar o trabalho dos outros, e tendo em vista os anos de carreira e a credibilidade que Mônica transmitia, achou justo. Por fim, realizou o pagamento e agendou as consultas. Seus encontros com ela ocorreriam duas vezes por semana, com duração de duas horas cada dia.
No final da noite, pôs a cabeça no travesseiro sabendo que agora teria mais uma dívida para atormentá-la o sono, mas tentou seguir o conselho da amiga sobre enxergar tudo aquilo como um investimento.
“Vivi, obrigada pela grana, estou com um pressentimento que tudo isso mudará a minha vida. Começo a mentoria terça-feira, me deseje sorte! Agora vou dormir, pois o dia foi bem cheio. Boa noite! Beijo, beijo.”
Fim.
